ENTREVISTA COM FABRICIO DE PRÁ: VENCEDOR DO PRÊMIO SULTEXTIL 2018

Escrito por Sultextil
Fotodivulgação: Fabriicio de Prá / Vencedor do prêmio UCS/Sultextil;

Como vencedor do Prêmio UCS/ Sultextil, quais suas expectativas?

O prêmio  UCS/ Sultextil é um marco em oportunizar a visibilidade para a perspectiva que os alunos do curso de moda constroem para seu trabalho de conclusão. Como consequência deste reconhecimento espero retribuir com a construção consciente do vestuário da minha marca, o Atelier Rico Bracco, aprimorando e explorando novos materiais biodegradáveis ou de reaproveitamento aliados à necessidade comercial. 

Quando surgiu seu interesse por moda?

O meu interesse por moda surgiu, acredito, em um lapso inconsciente pelo afeto à figura da minha avó paterna, que era costureira. Nas minhas tardes de infância eu a acompanhava junto aos pés da máquina de costura enquanto o pedal corria cada ponto, foram nestes instantes, talvez quase que monótonos, onde comecei a praticar algumas miniaturas de roupinhas com retalhos de tecido, sempre muito bem orientado por ela.

Sobre a Coleção Nihilego, poderia nos contar como foi o seu processo de criação? Inspiração, pesquisa, motivações?

A coleção NIHILEGO foi concebida a partir da análise social de Martin Buber, levantando a problemática sobre a concepção do Ego (Eu), através do outro (Tu), e as consequentes facetas desta interação. Minha perspectiva aborda linhas de desconstrução  ilustrando as visões propostas por Buber, e sustentando-se na metáfora dos cogumelos derivada da partícula “MA” da língua japonesa, na qual é explorado o movimento gratuito das personagens de uma narrativa. As peças foram construídas em matéria prima essencialmente biodegradável, usando tecidos como biocouro Kombucha, organza de seda floating, tela de seda linho, palha de seda e resíduos de madeira de mogno.

Como você enxerga o relacionamento da moda com a psicologia?

Nos comportamos da maneira a qual fomos condicionados desde o nosso nascimento. Temos a figura materna (independente da postura biológica ou de gênero da filiação), ou a ausência dela, como o princípio para a construção do nosso Ego através da interação e estimulação dos nossos sentidos. Crescemos construindo uma personalidade a qual atribuímos valores simbólicos como a fé que define nossa proporção de pudor, valores fisiológicos definidos pelo nosso clima, valores de expressão definidos pela ornamentação estética, etc. Este valores representam a unidade moda como uma ideia, algo intangível tendo o vestir como consequência. Essa é a visão que tenho ao aproximar a moda da psicologia, talvez apenas tornando mais clara essa conexão.

Seu trabalho tem um profundo contato com o artesanal e com a natureza, com a busca por matéria-prima alternativa e novos fazeres. Você imagina o futuro da moda associado a estes fatores?

A moda como sistema, um processo que gira em torno de sazonalidade e da reprodução de vestuário em escala comercial, é extremamente volátil. É difícil definir uma expectativa pontual para o futuro da moda, uma vez que o consumo é dependente de fatores terciários, de querer e adquirir um produto, muitas vezes ignorando o conceito por trás de uma coleção. Uma proposta de futuro agradável, dentro da minha visão de criador, é a exploração de novos materiais de potencial biodegradável ou de baixo impacto sócio-ambiental, o reaproveitamento de materiais descartados como o PET e as fibras celulósicas provenientes do algodão.

Qual a importância de um prêmio como o UCS/Sultextil para alguém que está se formando?

O incentivo à continuidade da pesquisa desenvolvida durante o trabalho de conclusão. Acredito que todos os formandos mergulham em um tema em que acreditavam piamente, depositando toda a dedicação e empenho e receber o prêmio é uma confirmação de que a proposta de trabalho expressa bem o espírito do tempo.

O que você acha da relação entre indústria e instituição de ensino?

A ligação da indústria e da universidade é um fator essencial para a maturação profissional do”pé no chão”. Somos confrontados com situações que fogem da linha emocional da criação e nos exigem um olhar que abrange as necessidades da indústria e do mercado que regem a razão comercial.

Que suportes você considera necessários para viabilizar a entrada de jovens designers no mercado de moda?

A criação em conjunto com outros criadores que já se encontram no mercado da moda é um modo de viabilizar nossa entrada. Assim como a participação em concursos, vide a parceria UCS/ Sultextil e a parceria UCS/ Dakota,  que nos oferece novas possibilidades de atuação fugindo de um posto convencional na confecção têxtil.

Você tem uma história antiga com a Sultextil. Como você enxerga as possibilidades de continuidade de parcerias entre sua marca e uma indústria têxtil?

A Sultextil foi quem norteou o início do meu trajeto na moda. Fui menor aprendiz no curso de Costureiro em série e Modelista na confecção de roupas pelo SENAI José Gazola no ano de 2011 e, agora premiado também pela empresa. Foi um ciclo concluído. Quanto a possibilidade de parceria, estou desenvolvendo um estudo da reutilização de microfilamentos gerados pelo atrito das anilhas no processo de tecimento da malha circular, este mesmo geralmente é descartado por não haver possibilidade de aproveitamento. Dentro deste estudo que envolve o cultivo do bio couro Kombucha, será possível explorar o design de superfície através da inserção das microfibras na placa hidratada durante o crescimento da colônia de bactérias.

Você acha que há um equilíbrio entre o mercadológico e o criativo nas universidades de moda?

Com certeza, dentro das duas universidades das quais fiz parte, a UCS e o CIIND Imaginarte (Guadalajara-MX), ambas tinham uma profunda preocupação em orientar a criação direcionada ao mercado, ao mesmo tempo que estimulavam a criação lúdica.

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